Nas últimas décadas o modo de viver em prédios mudou radicalmente. A pergunta é: modificou-se em função da mudança de estilo de seus moradores ou o estilo de vida destes transformou-se em decorrência dos novos projetos?

Uma questão difícil de responder e, que talvez, tenha um pouco das duas alternativas. O certo é que nas últimas décadas os apartamentos e as áreas sociais dos edifícios mudaram completamente. Se nas décadas de 60, 70 e 80 os apartamentos eram amplos e as áreas comuns restringiam-se, no máximo, à uma piscina, hoje os apartamentos são enxutos e as áreas sociais supervalorizadas. Mas uma nova tendência aparece no mercado e está fazendo sucesso.

Nossos pais valorizavam muito salas e quartos amplos, cozinha independente, dependência de empregada com banheiro e ainda uma sala de tv ou escritório. Para os mais tradicionais, esse apartamento é um sonho possível de ser encontrar ainda no mercado de alto luxo. Hoje, a média dos apartamentos que são lançados no mercado possuem quartos reduzidos, em torno de 12m2, salas estreitas onde devem caber um sofá em frente à tv e uma mesa de quatro lugares. Tudo isso integrados à uma cozinha.

E de onde vem essas mudanças? Dos usuários ou do mercado imobiliário? Pode-se dizer que é uma conjugação das duas. Por um lado, construtoras viram a possibilidade de construir apartamentos menores e aumentar o valor do m2, tendo uma maior eficiência econômica em cima dos terrenos que se tornaram cada vez mais caros e escassos nas áreas centrais. Por outro lado, a vida moderna começou a dispensar alguns espaços como a dependência de empregada, a sala de televisão que hoje é parte integrante das atividades familiares na sala. A vida moderna também colocou os ocupantes dos apartamentos mais tempo fora de casa, seja por causa do trabalho ou das diversões urbanas. Então para que ter um apartamento grande só para passar poucas horas e, a maioria delas, dormindo?

A vida moderna também construiu o conceito de funcionalidade, ou seja, ter espaços apenas que sejam realmente utilizados e espaços que não deem muito trabalho, que não precisem de muita manutenção. As pessoas querem se divertir e não ficar preocupadas com consertos e limpezas. Nada de muito enfeite que acumula pó, nada de carpete que necessita limpeza pesada e acumula ácaro, nada de prataria que precisa ser ariada.

Os apartamentos ficaram funcionais, com o mínimo de espaço para realizar as atividades diárias. O divertimento de final de semana e as reuniões noturnas com amigos e familiares foram transferidas para as áreas sociais. Essas, por sua vez, tornaram-se locais de destaque nos residenciais, sendo desenvolvidas com preciosismo pelas construtoras e arquitetos. Assim, Salão de festas, Espaço Gourmet, Espaço Fitness, Piscina, entre outros, são projetados com decoração refinada e equipamentos de última geração.

Tudo maravilhoso. A criançada do condomínio se reúne para brincar, as mulheres se encontram na piscina, os homens reúnem-se para ver o jogo no salão de festas. Mas quando no meio disso tudo tem um solteiro que não aguenta criança gritando, maridos que ficam enciumados com os jovens bombados desfilando na piscina ou casais “zens” que não suportam aquela bebedeira de torcedores torcendo. Como harmonizar todos estes conflitos?

Existem várias soluções, algumas praticadas já há algum tempo como a padronização da tipologia dos apartamentos em um mesmo prédio. Ou seja, não misturar apartamentos de um dormitório com três dormitórios em um mesmo prédio, que com certeza juntam famílias com filhos e pessoas solteiras. Mas uma nova tendência vem sendo desenvolvida para acabar com esses incômodos e ainda incentivar uma sinergia entre os moradores: são os residenciais inspirados nos estilos de vida os lifestyles residences.

A tendência está se espalhando por várias partes do mundo, acompanhando os vários estilos de vida. Nos Estados Unidos foi desenvolvido um condomínio de casas campestres, como se fosse uma grande fazenda comunitária para famílias que buscam qualidade de vida junto à natureza. No condomínio há enormes plantações cuidadas pelos proprietários, que além de alimentar-se com os produtos, ainda possuem uma loja para venda. Em Florianópolis, foi entregue recentemente um residencial inspirado na cultura surf, com áreas sociais criadas exclusivamente para os esportistas. Localizado em frente à praia do Campeche, conhecida por suas ondas, o Kanaloa (Deus do Oceano em havaiano) possui áreas como o Espaço surf que serve de transição entre a praia e o apartamento, com chuveiros, vestiário e guarda-prancha.

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Recentemente em Florianópolis mais um lifestyle residence foi lançado, agora inspirado em um estilo de vida dinamarquês, o Hygge. Nesse, áreas confortáveis e aconchegantes valorizam a convivência entre os amigos e familiares em harmonia com a natureza. O destaque fica para uma praça suspensa na cobertura com lounges, espaço para crianças e hortas comunitárias. Em São Paulo, vários residenciais com apartamento studios assumem um estilo jovem e criam áreas como lavanderia, com mesa de sinuca e pub com coworking.

Praça suspensa_hygge

Interessante nesses lifestyles residences é a sinergia que acontece entre os moradores, já que todos possuem estilo semelhante de vida. A convivência fica mais fácil, os interesses comuns e mais uniformes e as reuniões de condomínios mais tranquilas.

 

Geraldo Abud Rossi

Diretor da BLU Urban Thinking

One Thought on “A evolução dos prédios residenciais transformou o estilo de vida das pessoas?

  1. Denys Paiva Salva on 1 de setembro de 2017 at 18:48 said:

    Da-lhe Geraldo,escrevendo com maestria e conhecimento,bem legal,abs

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